A escuta começou antes
A escuta começou antes
Atravessamentos ...
Há uma pergunta que gosto de fazer de tempos em tempos: Quem seríamos se não tivéssemos vivido tudo aquilo que vivemos?
Não sei responder. Talvez ninguém saiba.
O que aprendi é que algumas das escolhas mais importantes da nossa vida não nascem dos momentos de tranquilidade, mas justamente daqueles em que nos sentimos perdidos, frágeis ou sem direção.
A cadeira do paciente ...
Muito antes de me tornar psicólogo, eu ocupei a cadeira que hoje ofereço aos meus pacientes. Durante alguns anos convivi com a síndrome do pânico. Houve um tempo em que atividades simples do cotidiano, como sair de casa ou ir ao trabalho, eram acompanhadas por um intenso sofrimento. Foi nesse período que conheci a Psicologia — não como profissão, mas como paciente.
Passei por diferentes processos terapêuticos, conheci distintas abordagens e, pouco a pouco, fui descobrindo algo que mudaria completamente minha forma de compreender o ser humano: a escuta tem uma potência transformadora.
Naquele momento, escolhi confiar nesse caminho. Decidi enfrentar esse processo por meio da psicoterapia, sem recorrer ao tratamento medicamentoso. Não foi um percurso rápido, nem fácil. Foi uma caminhada construída sessão após sessão, palavra após palavra.
Hoje, algumas experiências que fazem parte da minha vida teriam parecido inimagináveis naquela época. Uma delas é o voo livre de asa-delta. Curiosamente, não menciono isso pelo voo em si, mas porque houve um tempo em que apenas sair de casa já exigia uma enorme coragem. Sempre que voo, lembro-me de que a vida pode nos surpreender quando encontramos espaço para elaborar nossas dores e continuar caminhando.
Essa experiência não me fez acreditar que conheço as respostas para o sofrimento humano. Pelo contrário. Ela me ensinou que cada pessoa possui sua própria história, seu próprio tempo e sua própria maneira de reconstruir a vida. Talvez por isso eu tenha tanto respeito pela singularidade de cada processo terapêutico. Antes de aprender a escutar o sofrimento como psicólogo, precisei aprender a escutá-lo em mim mesmo.
Meu setting ...
Hoje recebo cada pessoa com a convicção de que nenhuma história pode ser reduzida a um diagnóstico e de que todo sofrimento merece um espaço onde possa ser acolhido, compreendido e elaborado com respeito, ética e sensibilidade.
Minha trajetória acadêmica nasceu desse encontro entre a experiência e o desejo de compreender mais profundamente a condição humana. Sou graduado em Filosofia pela Universidade Metropolitana de Santos (UNIMES), especialista em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), psicanalista formado pela UNAEE e psicólogo pela UNIFAAT (Centro Universitário de Atibaia). Ao longo da minha formação também realizei especializações voltadas à saúde mental, entre elas a pós-graduação em Intervenção ABA aplicada ao Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Hoje compreendo que Psicologia, Psicanálise e Filosofia não representam caminhos distintos. São diferentes formas de aproximar-se da mesma pergunta: quem sou eu?
E talvez seja justamente essa pergunta — mais do que qualquer resposta pronta — que continua conduzindo meu trabalho todos os dias.